terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Tumor benigno - parte 2

Marina teve um início de descontrole, sentiu uma coceira atrás da orelha e na pontinha do nariz, uma vertigem relâmpago. Semana passada ela teve uma longa conversa com as suas melhores amigas sobre esse relacionamento indefinido no qual estava metida. “Agora é a hora, ou vira namoro, ou acaba”, disse entre uma cerveja e uma batata frita.

Ela sempre foi conhecida entre as amigas por não emplacar namoro algum – ou o moço não dava a mínima para ela, ou agradava demais, era solícito demais e ela se sentia sufocada. E não havia o menor problema em não vingar relacionamentos, pelo menos pra ela (e essa é uma questão que também fica muito melhor na maturidade do que na adolescência: a opinião alheia é apenas uma opinião e não um problema para a sua vida toda). Marina tinha um melhor amigo desde sempre, com quem ia ao cinema, comprava CDs e livros, almoçava e jantava enquanto todos os casais da cidade faziam o mesmo, assistia vídeos cult, cinema europeu e asiático, para os quais as suas duas inseparáveis amigas não tinham a menor paciência: uma gostava de comédias românticas hollywoodianas, com mocinha, mocinho e cachorro e a outra dormia depois dos trailers, tanto no cinema, quanto no sofá – era crônico.

E com esse melhor amigo, Marina tinha opinião masculina, mão forte e cafuné. Além disso, tinha também um trabalho incrível. Jornalista, era uma das poucas da turma da faculdade que exercia a profissão e acordava todos os dias com vontade para pegar no batente, exceto em períodos de TPM e manhãs de ressacas homéricas. Marina tinha também um professor de ioga maravilhosamente zen e morava sozinha numa casa de vila, cujo valor do aluguel conseguia sustentar, junto com o seu padrão de vida, que exigia uma certa grana para leitura, música, artes visuais, boa comida, café e artigos de vestuário. Marina tinha bom gosto e estava sempre bem vestida, com o básico e acessórios.

Em suma, Marina tinha amigos com quem sentar em algum lugar e falar dos absurdos que cometia na vida sem nunca ser julgada, de coração aberto. Uma carreira a ser construída, autonomia para deixar a louça suja na pia por semanas, uma família com quem dava boas risadas. E ela tinha também um gato, o Gato, que foi batizado assim porque ela acreditava que todo mundo é um pouco Holly Golightly, a personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, ambiciosa sem ser gananciosa, de caráter duvidoso e ao mesmo tempo inocente, feliz e triste, nem boa nem má, superficial e profunda, sempre elegante, sem futilidade exagerada. Pelo menos, pra ela, todo mundo deveria ser.

Ah, sem esquecer que ela também tinha um chuveirinho com uma pressão de água especial e pagava as contas em dia com o próprio trabalho, principalmente a de água. Era feliz com o que tinha, por isso não havia problema em não emplacar namoros ou não ter um anel de brilhantes no dedo, como algumas de suas amigas e amigas das amigas ostentavam como se fosse um troféu. Marina definitivamente não era o tipo que andava com o vestido de noiva no porta-malas do carro.

E foi depois do almoço de uma segunda-feira, que ela colocou a maior fé na raça humana, numa mesa descolada de um café mais descolado ainda num bairro muito-muito descolado de São Paulo. O que aconteceu foi que Luís havia reencontrado uma paixão do passado e queria pagar pra ver o que aconteceria nesse novo relacionamento que ele desejava (re) iniciar. “Nada premeditado”, como ele definiu. Encontraram-se por acaso e ele queria conhecer melhor a mulher que deixou a vida dele quando era apenas uma menina, e preferiu deixar claro para Marina que ela era uma pessoa maravilhosa e mesmo que não tivessem firmado um contrato e não devessem satisfações um ao outro, ele achava justo e certo contar o que aconteceu num dos poucos fins-de-semana em que não estiveram juntos nos últimos meses.

Ele não veio com os papos “não é você, sou eu”, ou com o fatídico “foi legal.” E muito menos sumiu de repente, deixando de retornar ligações, como se fosse um defunto ou um abduzido. Ele a convidou para um café e falou o que estava acontecendo, ao vivo e a cores.

Ela ouviu. Falou pouco. Desejou sorte, pois se ele a achava especial, ela o achava mais ainda. Que atitude transparente. Que fora mais sutil! No fundo, mas bem no fundo mesmo, Marina ficou aliviada porque situações indefinidas deixavam-na um pouco tensa. Embora ela própria nunca tivesse muita paciência para definir as coisas, entre elas, o plano da academia e o livro que começara a escrever e nunca terminava. E olha que era um livro infantil.

Porém, sem saber por quê, no caminho de volta ao trabalho, ela teve vontade de chorar. E não se conteve. Chorou, pegou o celular na bolsa e ligou para Julia, a melhor amiga que dorme nos filmes:

- Oi
- Tomei uma bota...

Estava diagnosticado o primeiro caso de tumor benigno, em tempos.

CONTINUA...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Bazar CDC

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Tumor benigno

E quem nunca “quase morreu” por amor? Ou, melhor dizendo, confundiu uma tristeza (e sensação de perda) profunda com a chegada da morte? Pra falar sério, isso é coisa de adolescente, e não estou subestimando a classe, até porque ele brota na gente em toda época da vida, mas em certos momentos (geralmente quando faz uns 10 anos que se tinha uns 15), ele surge e a gente sabe que foi tomado por um lapso, um flashback, diferentemente de quando você vive a adolescência lá na hora, no pretérito perfeito, e não tem discernimento pra saber que, definitivamente, aquelas dores, aquelas angústias, não vão durar eternamente.

A quase morte por amor – descobrimos isso só mais tarde – por inúmeros motivos e razões, é, no máximo, uma moléstia passageira ou, em casos de caras bacanas demais que passam pelas nossas vidas atribuladas e fazem alguma diferença, um tumor benigno. Mas estes nódulos do amor que se perdeu ou não chegou a acontecer realmente se somatizam em casos especiais: ele era inteligente, tinha suas imperfeições encantadoras, era engraçado sem ser bobo e a qualidade mais bacana de todas, era muito verdadeiro. Se esse cara quase-perfeito a deixou apaixonada quando você era adolescente, você quase morreu. Mas se a dor de cotovelo acometeu um cotovelo adulto, você teve um tumor benigno. E isso passa.

Marina acabara de diagnosticar um destes tumores benignos. Há uns três meses ela saía com o Luís, amigo dos seus amigos: um cara reservado, que gostava de andar a cavalo, mas não tinha o estilo de vida dos que usavam as botas e a sela como desculpa para não fazer mais nada da vida. Ele tinha uma carreira promissora, no início, é claro, como a da maioria das pessoas da sua idade, vinte e alguns, trabalhava engravatadinho numa multinacional, em alguns fins de semana rumava para o interior em busca de um haras, e desfrutava de noites boêmias com os amigos como qualquer um. A diferença no meio da multidão? Ele se entregava a relacionamentos se sua intuição dissesse que uma mulher especial, ou ao menos encantadora, tinha cruzado o seu caminho. Era do tipo que ligava no dia seguinte, e no outro também. Além de convidar para uma peça de teatro, comprava os convites. Nada de amante à moda antiga, careta ou carente demais. Apenas um cara transparente, com atitude e nada complicado. Começou inesperadamente, fluiu naturalmente e acabou, mas não sem uma explicação.

Marina trabalhava tranqüilamente em frente ao computador e ele entrou. Não na sua sala nem em seu pensamento, ele entrou no MSN, uma ferramenta cibernética de trocas de mensagens instantâneas popularizada nos anos 90.

Luís diz:
Oi
Marina diz:
Oi! Tudo bem?
Luís diz:
Vc tá muito ocupada?
Marina diz:
Muito, muito, não. Pode falar.

“Fodeu”, pensou. Era segunda-feira e eles não saíram no sábado, domigo também não. Não deviam satisfações um ao outro, afinal o que viviam não era namoro, tampouco compromisso, era simplesmente bom. Ela achava que era puramente sexo e diversão, alternado com jantares, concertos e passeios curtos – nada de acompanhá-lo em seus fins-de-semana de montaria e piscina no sítio dos seus pais, afinal, a proposta não era tornar o que estavam vivendo algo sério demais.

Luís diz:
Será que a gente podia almoçar, ou tomar um café mais tarde pra conversar?

CONTINUA...

PS: Se você não está entendendo nada, intere-se aqui e acompanhe os posts com a tag SERENATA.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

João Pimenta´s Bazar



João Pimenta é um estilista sensível e incrível.
Diz que tem peças novas com preço de bazar. Ai, ai, vamos?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Início

Um dia, ou melhor, uma noite, você ouve uma barulheira suspeita no quintal da sua casa. Espia pela fresta da janela no breu completo (vai que é um ladrão...) e depara-se com três homens [mal]vestidos como mímicos em camisetas listradas, portando instrumentos de corda, pigarreando a fim de limparem suas gargantas para em seguida começarem uma cantoria desenfreada. Uma serenata está prestes a começar, NO SEU QUINTAL! E a lua ainda por cima, está cheia, parecendo um pão de queijo gigante em uma noite de céu claro e sem nuvens, temperatura mínima de 18 graus e máxima de 26.
Mas não seria mais apresentável mandar os Trovadores Urbanos? Enfim.
Imagine a cena. Desconcertada, você desconfia/percebe/não quer acreditar que um dos seresteiros é o primeiro amor de toda a sua existência, aquele amor que você sente sem nem saber o que é, antes da sua vida propriamente dita começar (se é que ela já começou). Boquiaberta, nota que o homem por trás da serenata encomendada chega a passos apressados, com um colossal buquê de rosas colombianas vermelhas nas mãos e uma camisa tão passada que parece ter sido recém comprada, cheia de goma e com cheiro de roupa nova. E você mal acabou de conhecê-lo. “Será que foi amor à primeira vista? O que esse cara viu em mim, pra encomendar uma serenata pra mim???”

Tão clichê, essa história pode acabar de inúmeras formas:

Alternativa 1: dane-se o engomado que encomendou uma serenata e está visivelmente apaixonado por você. Cai a chuva na cidade (mesmo que o céu esteja tão límpido quanto enluarado) e você corre para os braços de um dos músicos, o primeiro amor da sua vida – que você não via há décadas – e são felizes para sempre. MAS, o seu primeiro amor nem é mais aquele cara por quem você se apaixonou no playground do prédio e você também não é mais a garotinha doce e apaixonada e que acredita em contos de fada. Hoje você questiona o “felizes para sempre” de todas as histórias, afinal todo castelo tem contas a pagar, depressão pós-parto é uma realidade e, definitivamente, nada dura para sempre.

Alternativa 2: você corre pros braços do yuppie que teve a romântica ideia de encomendar uma serenata pra você. Love story no qual os opostos se atraem, as previsões caem por terra e você, tão moderna e desencanada – meio das artes – cai perdidamente de amores por alguém com pinta de corretor da bolsa dos mais chauvinistas. Férias em Arembepe dormindo numa cabana de pescador, nunca mais! Daí pra frente, somente temporadas em resorts badalados farão parte dos seus roteiros de viagem. MAS ainda tem um príncipe meio encantado na história e se parece muito com outros romances vistos por aí. Perfeito demais, sei lá.

E se você ficasse com um dos outros seresteiros? Ou percebesse que sua alma gêmea é o morenaço com voz mais afinada? Peraí, mas quem disse que uma serenata tem que terminar com beijos melados e juras de amor eterno? Quem? Alguém disse, porque senão tivesse dito, estes não seriam os primeiros desfechos que imaginaríamos para uma história dessas (embora quem tenha imaginado fui eu).

É possível ainda que você morra, porque na pressa de descer as escadas e desfazer esse mal-entendido todo, de serenata, primeiro e novo amor, você pode tropeçar e quebrar o pescoço. Decepcionados, todos iriam embora e passariam a considerá-la a pessoa mais insensível do planeta. Ninguém ficaria sabendo da sua morte, o novo amor vai embora para Dubai arrematar novas empresas e descobrir novos mercados, e o primeiro amor engravidaria uma mocinha por aí e vai morar (com ela) nos fundos das casas dos sogros. O seu corpo só seria encontrado por causa do futum, meses depois, por vizinhos curiosos, afinal você vive sozinha e nem tanta gente assim deu por sua falta. Trágico. Fúnebre.
Afinal, o que aconteceria com esta história? A gente tem escolhas, mas de que adianta ter posse delas se dizem que no fim tudo acontece do jeito que a vida tem que ser, como num roteiro pré-estabelecido? Aliás, você acredita em destino?

Esta é uma das histórias da história de Marina. Ela não morreu, pelo menos não na noite da Serenata. E ela é apenas mais uma prova de que a vida é mesmo imprevisível...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

SERENATA - o livro

Antes do Início

Este livro não foi baseado ou inspirado em, e nem extraído ou adaptado de Sex and The City ou algum outro conto que envolve mulheres e seus conflitos. Esta é apenas uma história com personagens comuns – e ao mesmo tempo extraordinários – simplesmente interessantes, gente como a gente.
Essa história não quer transmitir uma regra para viver ou um comportamento a ser adotado. Ela não é verídica nem dita tendências, porque cada um sabe o que faz com as suas próprias escolhas, tem lá suas rotas de fuga, seus destinos mal traçados, tortuosos.
E ninguém precisa necessariamente de mais um livro com dicas mágicas e preciosas para conquistar amores duradouros, influenciar grandes platéias e ser a musa dos próximos verões. Eu espero que não. Espero também que a felicidade não esteja intrinsecamente ligada às conquistas: sejam de pessoas, maridos, grandes platéias ou o corpo perfeito.
Esta discussão é um tanto quanto ampla e pode chegar a lugar nenhum. E eu também não sou absolutamente ninguém para criticar a felicidade ligada a certos valores e nem defini-la de alguma forma.
Estou aqui somente para apresentar uma história, sem impor que ela influencie seu comportamento, diga o que você deve ou não fazer ou como precisa se comportar. Neste livro tem mulher moderna? Tem. Amor? Sim. Vida profissional, social e amigos? Tem também.
Ah, então é mais um chick-lit wannabe? Pode ser... Esta é uma história (ou muitas histórias) de uma mulher do seu tempo, alguns homens do seu tempo também, dias e noites, trabalhos e profissões, desilusões e sonhos, abraços e beijos, partidas e chegadas...
Serenata é uma história que existe não pela ânsia de se tornar um clássico da juventude ou o retrato perfeito de uma tal “mulher moderna.” É uma história que existe já que eu não tive criatividade suficiente para escrever uma fábula sobre bruxos e vampiros e ficar rica!
Divirta-se.

(Amanhã o primeiro capítulo em si estará no ar)

Íntimo e pessoal

Outro dia eu tuitei:

"Sabe quando você fazia uma coisa e achava que era legal, aí quando pega essa coisa de novo e vê que ela nem é tão legal assim? Então."

Eu me referia a uma história que eu comecei a escrever há uns anos, porque o que eu realmente queria ser quando crescer era escritora.

Eu não tenho mais a pretensão de um dia colocar o original embaixo do braço e tentar publicá-lo, mas como a internet é um espaço livre e esse blog talvez seja uma boa ferramenta pra eu continuar aprendendo a escrever (meu deus, tô médio em crise existencial e não sei a explicação para muitas coisas e nem a utilidade de muitas outras), resolvi publicá-lo, aos poucos, aqui.

Portanto, os posts com a tag SERENATA são o livro.

Ele não está finalizado e pretendo fazer isso por aqui.

Pedido: se tiver MUITO RUIM, por favor comente, assim eu paro no meio, prometo!