A mãe de João era uma judia (de família muito abastada) cujo objetivo de vida, na juventude, era viver da forma mais natural possível, de preferência contra tudo aquilo que sua linhagem impunha: casamento com algum filho de amigo, negócio próprio tocado com os parentes e jantares íntimos às sextas-feiras, o dia sabático. Em uma espécie de fuga, ela passava todas as férias na Chapada Diamantina, na Bahia, apreciando e desfrutando de todo, mas todo mesmo, verde que pudesse. Claro que sempre voltava para São Paulo de ônibus e era recepcionada pelo motorista da família, que sob sua instrução, deixava a Mercedes parada no estacionamento mais longe da rodoviária. Numa dessas viagens, foi à Salvador e na praia de Itapuã conheceu uma turma de músicos e vendedores de artesanato.
Solteira, sem o desejo de se casar e com uma conta bancária inflada pelo pai que não resistia ao seu olhar meigo, ela levou essa vida. O tempo passou, uma turma de músicos fez sucesso, alguns vendedores de artesanato inauguraram seus ateliês, galerias e, quiçá, museus, em vernissages sofisticados... E ela continuou a se dividir entre São Paulo e a Bahia, voltando pra casa invariavelmente quando o dinheiro acabava. Já balzaquiana, voltou certa vez grávida do Zé, um tocador de flauta celta que não fez muito sucesso porque gastou todo o seu tempo com atividades ilícitas. No fim das contas, Zé foi um dos poucos a permanecer na praia de Itapuã, como garçom de uma barraca, onde provavelmente continua até hoje, a conviver com os turistas e com as rádios locais despejando o axé e a alegria típica da “Nova Bahia”, que pouco tem a ver com aquela de antigamente.
Zilda nunca mais voltou ao estado baiano - de onde guardou apenas as boas lembranças e algumas fotografias amareladas - e assumiu de vez a gerência da loja de tecidos da família no centro de São Paulo. João nasceu e cresceu ouvindo histórias do pai (inventadas pela mãe como forma de mitificar o homem com quem transou numa das suas noites tropicais), que nunca conheceu. Para o menino, ele era um músico promissor que não fez sucesso porque Gilberto Gil e Caetano Veloso não permitiram, por inveja. Zilda não cansava de repetir as tramas mirabolantes que envolvia contratos furados, empresários oportunistas e puxadas de tapete.
Desde então, João passou a detestar tudo o que se referisse aos dois músicos e embora tenha crescido e questionado as histórias fantásticas que sua mãe lhe contara, era mais forte do que ele: ele não gostava do nome Marina, definitivamente. E nem de Odara, ou Tieta. E nem de Caetano, nem de Gil. Nem de Dorival, Caymmi, Jorge Amado, nada.
Apesar da frustração de não ter com quem aprender a jogar futebol e das festas do dia dos pais completamente sem sentido, João teve todo o conforto e oportunidades que as crianças de classe média alta paulistana têm. Escola particular, curso de inglês e natação. Mas herdou da mãe o gosto pela natureza, e tinha aversão à vídeo-games de toda espécie, o que encantava Marina. Enquanto todos os meninos da sua idade passavam horas no fliperama, João preferia aprender a dedilhar um violão. Não fazia exatamente o estereótipo do bicho-grilo ou coisa assim, aliás, era até um pouco alienado. Do tipo que vestia camiseta de Che Guevara sem saber por o que ele lutou. Hoje, deve imaginar Che personificado em Gael García-Bernal, se é que ele foi ao cinema assistir Diários de Motocicleta.
CONTINUA...
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
- Você lembra que foi aqui que você começou a namorar o João? – perguntou a Bia, de repente, em mais um de seus ataques nostálgicos. Ela adorava relembrar cenas parecidas com as dos romances americanos cujo papel principal era invariavelmente da Meg Ryan.
- Lembro. Mas por que a pergunta agora?
Marina pediu uma água com gás, já alta com as cervejas que bebera, riu e se expôs, inteira, como se deve fazer com as amizades verdadeiras e de longa data. Principalmente com uma quantidade razoável de álcool na corrente sangüínea. Quando a gente tem amigos de quem não precisamos esconder nem as fraquezas nem as piores imundícies cometidas, somos realmente felizes.
Foi naquele boteco que hoje parecia sujo que Marina começou a namorar o João. Eles estudaram juntos desde sempre e na oitava série do ginásio, quando ele ainda não se chamava Ensino Fundamental e não durava 5 anos, um dia formaram uma turma e cabularam aula. Ninguém sabia beber direito, alguns vomitavam na rua, cheios de si, provando ao mundo que eram adultos, faziam coisas que os adultos podiam e eram muito malandros por matar aula para dar tais provas.
E foi nesse dia fatídico – fazia um calor desgraçado – que Marina e João se beijaram pela primeira vez. O menino calado que detestava o nome dela (ela não sabia o porquê), mas adorava seus cabelos cor de mel combinando com os seus olhos azuis deu o braço a torcer e entre uma pinga com mel e outra, beijou-a apaixonadamente. Nascia o primeiro amor de Marina. Aquele que quando acaba, faz a gente achar que vai morrer. Hoje ela sabe que no exato instante em que o namoro acabou, no meio do terceiro ano do colegial (quando ele ainda não era o Ensino Médio) porque João partiu num avião para um intercâmbio cultural e nunca mais voltou (que ela saiba), teve uma doença curável e a morte ainda estava longe. Primeiros amores são importantes e gostosos de lembrar, mas às vezes é patética a importância que damos a eles.
Um casal improvável, o caladão com a tagarela. Todo mundo sabia que João tinha uma admiração secreta pela faz-tudo do colégio: organizava gincana, saraus e peças de teatro, mobilizava abaixo-assinado contra uniforme ou métodos retrógrados de ensino. Parecia que ele a achava chata e parecia que ela nem notava a presença dele. Mesmo assim, eles começaram a namorar, porque quando a gente era muito jovem, tudo era mais simples: beijou, ou não ficava mais, ou namorava. E eles formaram um dos primeiros casais da turma.
Ali, naquela noite, as três amigas lembraram de João, Marina, Luís, mais nomes, outros homens, uns moleques... Marina levantou da mesa enferrujada com um pé meio bambo, foi até o banheiro, olhou fixamente a sua imagem refletida no espelho com a ponta quebrada e pensou: “Não foi o primeiro, não será o último”. Ela nem estava mais nos vinte anos pra se lamentar, nem tinha chegado aos trinta pra se lamentar também. Ela sabia, naquela imagem turva, que não importava o número de velas em cima do último bolo de aniversário, nem o número de foras que já tinha tomado. O seu rosto ainda fazia algum sentido.
- Ei, mais uma cerveja e uma água com gás, por favor?
CONTINUA
- Lembro. Mas por que a pergunta agora?
Marina pediu uma água com gás, já alta com as cervejas que bebera, riu e se expôs, inteira, como se deve fazer com as amizades verdadeiras e de longa data. Principalmente com uma quantidade razoável de álcool na corrente sangüínea. Quando a gente tem amigos de quem não precisamos esconder nem as fraquezas nem as piores imundícies cometidas, somos realmente felizes.
Foi naquele boteco que hoje parecia sujo que Marina começou a namorar o João. Eles estudaram juntos desde sempre e na oitava série do ginásio, quando ele ainda não se chamava Ensino Fundamental e não durava 5 anos, um dia formaram uma turma e cabularam aula. Ninguém sabia beber direito, alguns vomitavam na rua, cheios de si, provando ao mundo que eram adultos, faziam coisas que os adultos podiam e eram muito malandros por matar aula para dar tais provas.
E foi nesse dia fatídico – fazia um calor desgraçado – que Marina e João se beijaram pela primeira vez. O menino calado que detestava o nome dela (ela não sabia o porquê), mas adorava seus cabelos cor de mel combinando com os seus olhos azuis deu o braço a torcer e entre uma pinga com mel e outra, beijou-a apaixonadamente. Nascia o primeiro amor de Marina. Aquele que quando acaba, faz a gente achar que vai morrer. Hoje ela sabe que no exato instante em que o namoro acabou, no meio do terceiro ano do colegial (quando ele ainda não era o Ensino Médio) porque João partiu num avião para um intercâmbio cultural e nunca mais voltou (que ela saiba), teve uma doença curável e a morte ainda estava longe. Primeiros amores são importantes e gostosos de lembrar, mas às vezes é patética a importância que damos a eles.
Um casal improvável, o caladão com a tagarela. Todo mundo sabia que João tinha uma admiração secreta pela faz-tudo do colégio: organizava gincana, saraus e peças de teatro, mobilizava abaixo-assinado contra uniforme ou métodos retrógrados de ensino. Parecia que ele a achava chata e parecia que ela nem notava a presença dele. Mesmo assim, eles começaram a namorar, porque quando a gente era muito jovem, tudo era mais simples: beijou, ou não ficava mais, ou namorava. E eles formaram um dos primeiros casais da turma.
Ali, naquela noite, as três amigas lembraram de João, Marina, Luís, mais nomes, outros homens, uns moleques... Marina levantou da mesa enferrujada com um pé meio bambo, foi até o banheiro, olhou fixamente a sua imagem refletida no espelho com a ponta quebrada e pensou: “Não foi o primeiro, não será o último”. Ela nem estava mais nos vinte anos pra se lamentar, nem tinha chegado aos trinta pra se lamentar também. Ela sabia, naquela imagem turva, que não importava o número de velas em cima do último bolo de aniversário, nem o número de foras que já tinha tomado. O seu rosto ainda fazia algum sentido.
- Ei, mais uma cerveja e uma água com gás, por favor?
CONTINUA
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Marina, Luís e João
- Porra, mas você falou que nem queria namorar o cara! – a Julia encarou Marina meio irritada, como ela costumava ser sempre.
Ela realmente não queria namorar o cara. Mas é sempre delicado ser rejeitada, seja qual for a situação. Ah, você sai com um homem, ele é fofo, trata você bem, vocês conversam decentemente sobre música, política, gastronomia, moda (ah não, isso é com o amigo gay), família e angústias que chegam sem motivo. Fora que o sexo é bom e constante. E, de repente chega uma nova mulher, que não é necessariamente melhor ou mais bonita que você, apenas diferente, e ela desperta um brutal interesse. Normal, estamos todos sujeitos a passar por isso, e quando acontece, por mais moderna e madura que você seja, incomoda, frustra e pode até dar raiva.
Acenderam mais um cigarro, pediram outra cerveja e mais uma porção de empanadas. Ali no meio da Vila Madalena as três, Marina, Julia e Bia se encontravam religiosamente, sentavam numa mesa meio enferrujada na calçada do boteco que servia empanadas deliciosas e cerveja boa a preços módicos. Umas das únicas coisas acessíveis da região, que se na época que elas estudavam ainda no colegial (ou Ensino Médio, sei lá) era um refúgio alternativo e lugar onde desejavam as três morar numa casa de vila, com cara de república, liberdade e libertinagem, hoje havia se tornado um dos metros quadrados mais caros para viver, e de um trânsito tão infernal quanto o dos grandes centros comerciais da metrópole poluída.
No fim das contas, a única a morar sozinha era Marina, que alugou, sim, uma casa de vila, mas em outra que não a Madalena. Gastava pouco com aluguel e com as contas, graças ao salário razoável que ganhava na Pés à mostra e saiu do conforto do lar com o empurrãozinho dos pais que resolveram se mudar para o litoral depois de uma vida longa de dedicação aos estudos dos dois filhos. O único irmão mais velho de Marina era um verdadeiro cidadão do mundo socialmente consciente, pra não dizer obcecado – um dia estava no Camboja cuidando do sofrimento de civis em território de guerra e miséria, no outro navegava na Antártida salvando baleias de cruéis pescadores japoneses.
CONTINUA
Ela realmente não queria namorar o cara. Mas é sempre delicado ser rejeitada, seja qual for a situação. Ah, você sai com um homem, ele é fofo, trata você bem, vocês conversam decentemente sobre música, política, gastronomia, moda (ah não, isso é com o amigo gay), família e angústias que chegam sem motivo. Fora que o sexo é bom e constante. E, de repente chega uma nova mulher, que não é necessariamente melhor ou mais bonita que você, apenas diferente, e ela desperta um brutal interesse. Normal, estamos todos sujeitos a passar por isso, e quando acontece, por mais moderna e madura que você seja, incomoda, frustra e pode até dar raiva.
Acenderam mais um cigarro, pediram outra cerveja e mais uma porção de empanadas. Ali no meio da Vila Madalena as três, Marina, Julia e Bia se encontravam religiosamente, sentavam numa mesa meio enferrujada na calçada do boteco que servia empanadas deliciosas e cerveja boa a preços módicos. Umas das únicas coisas acessíveis da região, que se na época que elas estudavam ainda no colegial (ou Ensino Médio, sei lá) era um refúgio alternativo e lugar onde desejavam as três morar numa casa de vila, com cara de república, liberdade e libertinagem, hoje havia se tornado um dos metros quadrados mais caros para viver, e de um trânsito tão infernal quanto o dos grandes centros comerciais da metrópole poluída.
No fim das contas, a única a morar sozinha era Marina, que alugou, sim, uma casa de vila, mas em outra que não a Madalena. Gastava pouco com aluguel e com as contas, graças ao salário razoável que ganhava na Pés à mostra e saiu do conforto do lar com o empurrãozinho dos pais que resolveram se mudar para o litoral depois de uma vida longa de dedicação aos estudos dos dois filhos. O único irmão mais velho de Marina era um verdadeiro cidadão do mundo socialmente consciente, pra não dizer obcecado – um dia estava no Camboja cuidando do sofrimento de civis em território de guerra e miséria, no outro navegava na Antártida salvando baleias de cruéis pescadores japoneses.
CONTINUA
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Ela se sentou em frente ao computador e escreveu um longo e-mail destinado a ninguém... “Eu só soube o quanto gostava de você quando veio com um papo de que outra pessoa apareceu e por você rolaria algo mais sério”... “Por que ela tinha que aparecer bem na minha vez? Enquanto eu o conhecia melhor???”... “Como dizia a canção dos Mutantes, que pena que você não me quis, não me suicidei por um triz”... “Eu não liguei algumas vezes em que você pediu pra ligar, eu não fui ao sítio com a sua família toda, eu não dei valor e agora você foi embora”... “Será que eu tratei mal o seu cavalo? Ou será que você se irritou porque eu disse que música eletrônica é coisa de adolescente?”.
Marina tinha mania de escrever e-mails que nunca seriam enviados. Além de trabalhar escrevendo exaustivamente, o fazia também por puro prazer e para aliviar tensões do cotidiano. Como não podia correr pra ioga sempre que dava algum pepino, escrevia, escrevia, escrevia... Era disso que queria viver. Há alguns anos pensou em se aventurar na literatura infantil: olhou pro Gato e depois pro céu, imaginou a história do felino e do pássaro que se apaixonam e vivem um amor impossível. Olha só, que nobre, ensinaria às crianças em mensagens implícitas a importância de se respeitar as diferenças, os animais, a beleza do amor, ai, ai... Nobre e grandioso, se Jorge Amado não tivesse tido uma ideia parecida muitos anos antes.
Terminou de escrever o e-mail sem destinatário com um pesar e um saudosismo atípicos, como se tudo tivesse acontecido há muito tempo, em outra vida. Fechou a mensagem e clicou em “não” quando o alerta eletrônico questionou sobre o desejo de enviar aquela correspondência. Levantou-se e foi fumar um cigarro na sombra da jabuticabeira. Olhou para cima, mirou a segunda janela do terceiro andar e viu o magrelo que acabara de ser contratado para ser o novo integrante da redação da Padaria do futuro. “Nossa, ele parece aquele cara daquela novela, que descobriu que tinha leucemia depois de trair a namorada com a própria irmã, sem saber do parentesco que os uniam”, verificou.
CONTINUA
Marina tinha mania de escrever e-mails que nunca seriam enviados. Além de trabalhar escrevendo exaustivamente, o fazia também por puro prazer e para aliviar tensões do cotidiano. Como não podia correr pra ioga sempre que dava algum pepino, escrevia, escrevia, escrevia... Era disso que queria viver. Há alguns anos pensou em se aventurar na literatura infantil: olhou pro Gato e depois pro céu, imaginou a história do felino e do pássaro que se apaixonam e vivem um amor impossível. Olha só, que nobre, ensinaria às crianças em mensagens implícitas a importância de se respeitar as diferenças, os animais, a beleza do amor, ai, ai... Nobre e grandioso, se Jorge Amado não tivesse tido uma ideia parecida muitos anos antes.
Terminou de escrever o e-mail sem destinatário com um pesar e um saudosismo atípicos, como se tudo tivesse acontecido há muito tempo, em outra vida. Fechou a mensagem e clicou em “não” quando o alerta eletrônico questionou sobre o desejo de enviar aquela correspondência. Levantou-se e foi fumar um cigarro na sombra da jabuticabeira. Olhou para cima, mirou a segunda janela do terceiro andar e viu o magrelo que acabara de ser contratado para ser o novo integrante da redação da Padaria do futuro. “Nossa, ele parece aquele cara daquela novela, que descobriu que tinha leucemia depois de trair a namorada com a própria irmã, sem saber do parentesco que os uniam”, verificou.
CONTINUA
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Pés à mostra
Marina voltou à redação da revista onde trabalhava há quase quatro anos. E de onde sabia que deveria sair antes de virar prata da casa. Um casarão arejado e simpático com uma jabuticabeira nos fundos e quatro andares de bagunça abstrata abrigava uma empresa de médio porte e tinha no seu caderno de empregados registrados mais ou menos uns cem nomes. Júlio, o “Midas da comunicação”, como era chamado no meio, descobriu um filão no qual quis apostar todas as fichas: a segmentação. Os títulos da casa, Pés à mostra, Formas para bolo e Padaria do futuro eram as razões (e modos de enriquecer) de viver do poderoso patrão, que fez questão de discursar na primeira festa de fim de ano da qual Marina participara, sobre a nova profissional que ele acreditava ter descoberto: “Ela entrou para pesquisar fotos de pés das celebridades e mostrou-se uma grande revelação, assinando matérias relevantes, com muito conteúdo e vestindo a camisa da nossa editora!”. Ela virou em um gole só a taça de proseco que tinha nas mãos.
Realmente, para a imprensa o que não falta são meios para conseguir fotos de celebridades ou pseudocelebridades. Existe gente que precisa aparecer para divulgar um novo trabalho e também gente que precisa divulgar um trabalho desesperadamente para aparecer. As caixas de e-mail das redações são inundadas com fotos em alta resolução de todo tipo de ser dotado de “fama e sucesso” – embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra, e muito menos com talento – e assessores de imprensa estão sempre dispostos a ajudar, contribuir de alguma forma com o exercício da livre imprensa. Mas, fotos de pés? Definitivamente nenhum outro estagiário conseguiu, antes de Marina, tantos pés, tantas unhas coloridas, sandálias com brilhantes, joanetes célebres e unhas encravadas notórias. Até de anel de dedinho do pé ela conseguiu um belo close, clicado, ainda por cima, por fotógrafo badalado.
Para o começo da carreira, ela não podia reclamar. Entrou como estagiária na redação da Pés à mostra no último ano da faculdade, graças a um currículo enviado a esmo pela rede. A redação era formada pela diretora editorial, a editora chefe, a editora adjunta, o diretor de arte, a chefe de arte e uma repórter. Algum tempo depois, a repórter foi trabalhar em outro lugar e, olha só, Marina foi promovida a chefe de redação. Carreira praticamente meteórica, afinal entrou para ser um índio solitário comandado por vários caciques e conseguiu seu cargo de chefia também. E ela gostava muito do que fazia. Pés à mostra era uma publicação trimestral, muito bem produzida e apurada e tinha por trás anunciantes de peso, como grandes marcas de calçados e tênis e de esmaltes para unhas, além de uma parafernália de lixas, cremes e clínicas de todos os tipos. Líder no segmento (também pudera...), permitia à Marina o exercício de toda a sua criatividade e jogo de cintura. Tanto nas reuniões de pauta, “Reflexologia...”, “Joanete infantil...”, “Frieira no inverno...”, “Tênis versus botas...” como nas apresentações:
Por e-mail:
De: marina@pesamostra.com.br
Para: fulano@algumacoisa.com.br
Assunto: Entrevista
Olá Fulano, tudo bem? Conforme conversamos ao telefone, gostaria de entrevistar o doutor Franklin a respeito de desvios na coluna provocados pela forma incorreta de andar....
De: fulano@algumacoisa.com.br
Para: marina@pesamostra.com.br
Assunto: Re: Entrevista
Olá Marina, mas você é da revista Pesa e Mostra? Aquelas das balanças? Acredito que o doutor Franklin, respeitadíssimo ortopedista, formado em Trévous, mestre em estrutura óssea, membro da sociedade mundial de ortopedia entre outros, não possa contribuir com a sua matéria...
Por telefone:
- Alô?
- Bom dia, aqui é a Marina, repórter da revista Pés à mostra, poderia falar com a Jéssica?
- Marina de onde?
- Da revista Pés-à-mos-tra
- Pesa e mostra?
- Não, Pés à mostra, pés, o que você tem no fim das pernas...
- Pés de amostra?
- Não, Pés à mostra, separado... (Já sem nenhuma paciência)
...
CONTINUA...
Realmente, para a imprensa o que não falta são meios para conseguir fotos de celebridades ou pseudocelebridades. Existe gente que precisa aparecer para divulgar um novo trabalho e também gente que precisa divulgar um trabalho desesperadamente para aparecer. As caixas de e-mail das redações são inundadas com fotos em alta resolução de todo tipo de ser dotado de “fama e sucesso” – embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra, e muito menos com talento – e assessores de imprensa estão sempre dispostos a ajudar, contribuir de alguma forma com o exercício da livre imprensa. Mas, fotos de pés? Definitivamente nenhum outro estagiário conseguiu, antes de Marina, tantos pés, tantas unhas coloridas, sandálias com brilhantes, joanetes célebres e unhas encravadas notórias. Até de anel de dedinho do pé ela conseguiu um belo close, clicado, ainda por cima, por fotógrafo badalado.
Para o começo da carreira, ela não podia reclamar. Entrou como estagiária na redação da Pés à mostra no último ano da faculdade, graças a um currículo enviado a esmo pela rede. A redação era formada pela diretora editorial, a editora chefe, a editora adjunta, o diretor de arte, a chefe de arte e uma repórter. Algum tempo depois, a repórter foi trabalhar em outro lugar e, olha só, Marina foi promovida a chefe de redação. Carreira praticamente meteórica, afinal entrou para ser um índio solitário comandado por vários caciques e conseguiu seu cargo de chefia também. E ela gostava muito do que fazia. Pés à mostra era uma publicação trimestral, muito bem produzida e apurada e tinha por trás anunciantes de peso, como grandes marcas de calçados e tênis e de esmaltes para unhas, além de uma parafernália de lixas, cremes e clínicas de todos os tipos. Líder no segmento (também pudera...), permitia à Marina o exercício de toda a sua criatividade e jogo de cintura. Tanto nas reuniões de pauta, “Reflexologia...”, “Joanete infantil...”, “Frieira no inverno...”, “Tênis versus botas...” como nas apresentações:
Por e-mail:
De: marina@pesamostra.com.br
Para: fulano@algumacoisa.com.br
Assunto: Entrevista
Olá Fulano, tudo bem? Conforme conversamos ao telefone, gostaria de entrevistar o doutor Franklin a respeito de desvios na coluna provocados pela forma incorreta de andar....
De: fulano@algumacoisa.com.br
Para: marina@pesamostra.com.br
Assunto: Re: Entrevista
Olá Marina, mas você é da revista Pesa e Mostra? Aquelas das balanças? Acredito que o doutor Franklin, respeitadíssimo ortopedista, formado em Trévous, mestre em estrutura óssea, membro da sociedade mundial de ortopedia entre outros, não possa contribuir com a sua matéria...
Por telefone:
- Alô?
- Bom dia, aqui é a Marina, repórter da revista Pés à mostra, poderia falar com a Jéssica?
- Marina de onde?
- Da revista Pés-à-mos-tra
- Pesa e mostra?
- Não, Pés à mostra, pés, o que você tem no fim das pernas...
- Pés de amostra?
- Não, Pés à mostra, separado... (Já sem nenhuma paciência)
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CONTINUA...
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Tumor benigno - parte 2
Marina teve um início de descontrole, sentiu uma coceira atrás da orelha e na pontinha do nariz, uma vertigem relâmpago. Semana passada ela teve uma longa conversa com as suas melhores amigas sobre esse relacionamento indefinido no qual estava metida. “Agora é a hora, ou vira namoro, ou acaba”, disse entre uma cerveja e uma batata frita.
Ela sempre foi conhecida entre as amigas por não emplacar namoro algum – ou o moço não dava a mínima para ela, ou agradava demais, era solícito demais e ela se sentia sufocada. E não havia o menor problema em não vingar relacionamentos, pelo menos pra ela (e essa é uma questão que também fica muito melhor na maturidade do que na adolescência: a opinião alheia é apenas uma opinião e não um problema para a sua vida toda). Marina tinha um melhor amigo desde sempre, com quem ia ao cinema, comprava CDs e livros, almoçava e jantava enquanto todos os casais da cidade faziam o mesmo, assistia vídeos cult, cinema europeu e asiático, para os quais as suas duas inseparáveis amigas não tinham a menor paciência: uma gostava de comédias românticas hollywoodianas, com mocinha, mocinho e cachorro e a outra dormia depois dos trailers, tanto no cinema, quanto no sofá – era crônico.
E com esse melhor amigo, Marina tinha opinião masculina, mão forte e cafuné. Além disso, tinha também um trabalho incrível. Jornalista, era uma das poucas da turma da faculdade que exercia a profissão e acordava todos os dias com vontade para pegar no batente, exceto em períodos de TPM e manhãs de ressacas homéricas. Marina tinha também um professor de ioga maravilhosamente zen e morava sozinha numa casa de vila, cujo valor do aluguel conseguia sustentar, junto com o seu padrão de vida, que exigia uma certa grana para leitura, música, artes visuais, boa comida, café e artigos de vestuário. Marina tinha bom gosto e estava sempre bem vestida, com o básico e acessórios.
Em suma, Marina tinha amigos com quem sentar em algum lugar e falar dos absurdos que cometia na vida sem nunca ser julgada, de coração aberto. Uma carreira a ser construída, autonomia para deixar a louça suja na pia por semanas, uma família com quem dava boas risadas. E ela tinha também um gato, o Gato, que foi batizado assim porque ela acreditava que todo mundo é um pouco Holly Golightly, a personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, ambiciosa sem ser gananciosa, de caráter duvidoso e ao mesmo tempo inocente, feliz e triste, nem boa nem má, superficial e profunda, sempre elegante, sem futilidade exagerada. Pelo menos, pra ela, todo mundo deveria ser.
Ah, sem esquecer que ela também tinha um chuveirinho com uma pressão de água especial e pagava as contas em dia com o próprio trabalho, principalmente a de água. Era feliz com o que tinha, por isso não havia problema em não emplacar namoros ou não ter um anel de brilhantes no dedo, como algumas de suas amigas e amigas das amigas ostentavam como se fosse um troféu. Marina definitivamente não era o tipo que andava com o vestido de noiva no porta-malas do carro.
E foi depois do almoço de uma segunda-feira, que ela colocou a maior fé na raça humana, numa mesa descolada de um café mais descolado ainda num bairro muito-muito descolado de São Paulo. O que aconteceu foi que Luís havia reencontrado uma paixão do passado e queria pagar pra ver o que aconteceria nesse novo relacionamento que ele desejava (re) iniciar. “Nada premeditado”, como ele definiu. Encontraram-se por acaso e ele queria conhecer melhor a mulher que deixou a vida dele quando era apenas uma menina, e preferiu deixar claro para Marina que ela era uma pessoa maravilhosa e mesmo que não tivessem firmado um contrato e não devessem satisfações um ao outro, ele achava justo e certo contar o que aconteceu num dos poucos fins-de-semana em que não estiveram juntos nos últimos meses.
Ele não veio com os papos “não é você, sou eu”, ou com o fatídico “foi legal.” E muito menos sumiu de repente, deixando de retornar ligações, como se fosse um defunto ou um abduzido. Ele a convidou para um café e falou o que estava acontecendo, ao vivo e a cores.
Ela ouviu. Falou pouco. Desejou sorte, pois se ele a achava especial, ela o achava mais ainda. Que atitude transparente. Que fora mais sutil! No fundo, mas bem no fundo mesmo, Marina ficou aliviada porque situações indefinidas deixavam-na um pouco tensa. Embora ela própria nunca tivesse muita paciência para definir as coisas, entre elas, o plano da academia e o livro que começara a escrever e nunca terminava. E olha que era um livro infantil.
Porém, sem saber por quê, no caminho de volta ao trabalho, ela teve vontade de chorar. E não se conteve. Chorou, pegou o celular na bolsa e ligou para Julia, a melhor amiga que dorme nos filmes:
- Oi
- Tomei uma bota...
Estava diagnosticado o primeiro caso de tumor benigno, em tempos.
CONTINUA...
Ela sempre foi conhecida entre as amigas por não emplacar namoro algum – ou o moço não dava a mínima para ela, ou agradava demais, era solícito demais e ela se sentia sufocada. E não havia o menor problema em não vingar relacionamentos, pelo menos pra ela (e essa é uma questão que também fica muito melhor na maturidade do que na adolescência: a opinião alheia é apenas uma opinião e não um problema para a sua vida toda). Marina tinha um melhor amigo desde sempre, com quem ia ao cinema, comprava CDs e livros, almoçava e jantava enquanto todos os casais da cidade faziam o mesmo, assistia vídeos cult, cinema europeu e asiático, para os quais as suas duas inseparáveis amigas não tinham a menor paciência: uma gostava de comédias românticas hollywoodianas, com mocinha, mocinho e cachorro e a outra dormia depois dos trailers, tanto no cinema, quanto no sofá – era crônico.
E com esse melhor amigo, Marina tinha opinião masculina, mão forte e cafuné. Além disso, tinha também um trabalho incrível. Jornalista, era uma das poucas da turma da faculdade que exercia a profissão e acordava todos os dias com vontade para pegar no batente, exceto em períodos de TPM e manhãs de ressacas homéricas. Marina tinha também um professor de ioga maravilhosamente zen e morava sozinha numa casa de vila, cujo valor do aluguel conseguia sustentar, junto com o seu padrão de vida, que exigia uma certa grana para leitura, música, artes visuais, boa comida, café e artigos de vestuário. Marina tinha bom gosto e estava sempre bem vestida, com o básico e acessórios.
Em suma, Marina tinha amigos com quem sentar em algum lugar e falar dos absurdos que cometia na vida sem nunca ser julgada, de coração aberto. Uma carreira a ser construída, autonomia para deixar a louça suja na pia por semanas, uma família com quem dava boas risadas. E ela tinha também um gato, o Gato, que foi batizado assim porque ela acreditava que todo mundo é um pouco Holly Golightly, a personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, ambiciosa sem ser gananciosa, de caráter duvidoso e ao mesmo tempo inocente, feliz e triste, nem boa nem má, superficial e profunda, sempre elegante, sem futilidade exagerada. Pelo menos, pra ela, todo mundo deveria ser.
Ah, sem esquecer que ela também tinha um chuveirinho com uma pressão de água especial e pagava as contas em dia com o próprio trabalho, principalmente a de água. Era feliz com o que tinha, por isso não havia problema em não emplacar namoros ou não ter um anel de brilhantes no dedo, como algumas de suas amigas e amigas das amigas ostentavam como se fosse um troféu. Marina definitivamente não era o tipo que andava com o vestido de noiva no porta-malas do carro.
E foi depois do almoço de uma segunda-feira, que ela colocou a maior fé na raça humana, numa mesa descolada de um café mais descolado ainda num bairro muito-muito descolado de São Paulo. O que aconteceu foi que Luís havia reencontrado uma paixão do passado e queria pagar pra ver o que aconteceria nesse novo relacionamento que ele desejava (re) iniciar. “Nada premeditado”, como ele definiu. Encontraram-se por acaso e ele queria conhecer melhor a mulher que deixou a vida dele quando era apenas uma menina, e preferiu deixar claro para Marina que ela era uma pessoa maravilhosa e mesmo que não tivessem firmado um contrato e não devessem satisfações um ao outro, ele achava justo e certo contar o que aconteceu num dos poucos fins-de-semana em que não estiveram juntos nos últimos meses.
Ele não veio com os papos “não é você, sou eu”, ou com o fatídico “foi legal.” E muito menos sumiu de repente, deixando de retornar ligações, como se fosse um defunto ou um abduzido. Ele a convidou para um café e falou o que estava acontecendo, ao vivo e a cores.
Ela ouviu. Falou pouco. Desejou sorte, pois se ele a achava especial, ela o achava mais ainda. Que atitude transparente. Que fora mais sutil! No fundo, mas bem no fundo mesmo, Marina ficou aliviada porque situações indefinidas deixavam-na um pouco tensa. Embora ela própria nunca tivesse muita paciência para definir as coisas, entre elas, o plano da academia e o livro que começara a escrever e nunca terminava. E olha que era um livro infantil.
Porém, sem saber por quê, no caminho de volta ao trabalho, ela teve vontade de chorar. E não se conteve. Chorou, pegou o celular na bolsa e ligou para Julia, a melhor amiga que dorme nos filmes:
- Oi
- Tomei uma bota...
Estava diagnosticado o primeiro caso de tumor benigno, em tempos.
CONTINUA...
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